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IBGE realiza censo da população em situação de rua em Itapuã e acende debate sobre avanço do problema no bairro

Equipes do IBGE percorreram Itapuã durante a primeira prova piloto do Censo Nacional da População em Situação de Rua. Levantamento pode ajudar a dimensionar um problema que tem se tornado cada vez mais visível no bairro e reforça uma pergunta que precisa ser enfrentada pelo poder público: além de atender, como criar caminhos efetivos para que essas pessoas deixem as ruas?
Itapuã esteve entre as regiões de Salvador percorridas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) durante a primeira prova piloto do Censo Nacional da População em Situação de Rua, iniciada nesta segunda-feira (31).
A iniciativa busca testar os procedimentos de identificação, abordagem e coleta de informações que deverão ser utilizados no primeiro levantamento nacional específico sobre essa população. O objetivo é produzir dados mais precisos sobre quantidade, distribuição territorial, perfil socioeconômico e condições de vida das pessoas que vivem nas ruas.
No primeiro dia da operação em Salvador, seis equipes, reunindo 59 pessoas entre coordenadores, supervisores e recenseadores, percorreram localidades como Itapuã, Stella Maris, Praia do Flamengo, São Marcos, São Rafael e São Cristóvão.
A atividade conta ainda com representantes do movimento da população em situação de rua, colaboradores de programas sociais do Governo do Estado e da Prefeitura de Salvador, além de técnicos e observadores de outras instituições.
Uma realidade cada vez mais presente em Itapuã
A realização do levantamento chama atenção para uma situação que há alguns anos vem se tornando cada vez mais perceptível em diferentes pontos de Itapuã: a presença de pessoas utilizando praças, calçadas, marquises e outros espaços públicos como locais de permanência e abrigo.
É um problema social complexo, que não possui uma única causa nem pode ser tratado apenas como uma questão de segurança pública.
Desemprego, rompimento ou fragilização dos vínculos familiares, pobreza extrema, ausência de moradia, problemas de saúde mental e dependência de álcool e outras drogas estão entre os fatores que podem estar relacionados às trajetórias de pessoas que acabam vivendo nas ruas.
O próprio Plano Municipal de Saúde de Salvador aponta historicamente o uso de álcool e outras drogas, desemprego e conflitos familiares entre as principais motivações associadas à situação de rua.
Em Itapuã, entretanto, os reflexos dessa realidade também chegam ao cotidiano dos moradores e comerciantes.
Além da ocupação de áreas públicas, há reclamações relacionadas à degradação de determinados espaços, descarte irregular de resíduos, conflitos e episódios de depredação do patrimônio. É importante ressaltar, porém, que estar em situação de rua não significa ser criminoso, e eventuais delitos devem ser tratados individualmente pelos órgãos competentes.
Políticas públicas existem e equipes trabalham diariamente
Salvador já dispõe de diferentes políticas e serviços direcionados à população em situação de rua.
Entre eles estão o Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS), Centros POP, unidades de acolhimento e iniciativas relacionadas à saúde, assistência social, documentação, tratamento da dependência química e reconstrução de vínculos familiares.
Na área da saúde, o município também desenvolve ações por meio do Consultório na Rua, estratégia que busca atender essa população diretamente nos territórios e articular o acesso aos demais serviços da rede.
Documentos da Secretaria Municipal da Saúde mostram, inclusive, ações de capacitação e articulação envolvendo profissionais do Distrito Sanitário de Itapuã para melhorar o acolhimento da população em situação de rua.
Portanto, seria injusto afirmar que nada é feito.
Existem profissionais que diariamente percorrem as ruas, realizam abordagens, oferecem atendimento e tentam construir alternativas para pessoas que muitas vezes estão há anos vivendo em condições de extrema vulnerabilidade.
Mas o grande desafio continua: como fazer essas pessoas deixarem as ruas?
É justamente neste ponto que está uma das discussões mais importantes.
Atender quem está na rua é fundamental. Mas é preciso avançar também na capacidade de criar condições para que essas pessoas consigam efetivamente sair das ruas e não retornem a elas.
Uma política capaz de reduzir significativamente essa população exige atuação integrada em diferentes frentes: acolhimento, moradia, saúde mental, tratamento para dependência química quando necessário, geração de renda, documentação, qualificação profissional, reconstrução dos vínculos familiares e acompanhamento social continuado.
Salvador já chegou a estabelecer, em seus planejamentos públicos, iniciativas como ampliação da abordagem social, novas unidades de acolhimento e projetos de Moradia Assistida, voltados especialmente para pessoas em situação de rua crônica e com problemas relacionados ao uso abusivo de drogas.
O desafio é transformar essas diferentes iniciativas em uma estratégia integrada, com acompanhamento de resultados e capacidade suficiente para responder à dimensão atual do problema.
Dados utilizados em documento público municipal recente apontam mais de 8,5 mil pessoas em situação de rua registradas no CadÚnico em Salvador, evidenciando a dimensão do desafio enfrentado pela capital baiana.
Censo pode ajudar a entender o tamanho real do problema
É nesse contexto que o trabalho iniciado pelo IBGE ganha importância.
Hoje, diferentes bases administrativas podem apresentar números distintos. O primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua pretende justamente produzir uma base estatística padronizada, capaz de identificar onde essas pessoas estão, quem são e em quais condições vivem.
Segundo o IBGE, essas informações poderão contribuir para o planejamento das políticas públicas, distribuição de recursos e construção de ações mais eficientes.
A prova piloto realizada em Salvador também deverá ajudar a aperfeiçoar a metodologia. Características da cidade, como áreas turísticas, grande circulação de pessoas, ruas estreitas, ladeiras e mudanças no fluxo populacional ao longo do dia, tornam a identificação dessa população ainda mais desafiadora.
Para Itapuã, o levantamento chega em um momento especialmente importante.
O bairro precisa conhecer melhor a dimensão dessa realidade e discutir soluções que conciliem dignidade humana, assistência social, saúde, segurança, preservação dos espaços públicos e qualidade de vida para toda a comunidade.
Mais do que saber quantas pessoas estão vivendo nas ruas de Itapuã, os dados podem ajudar a responder uma questão ainda mais importante:
quantas delas poderão deixar as ruas, e quais políticas serão necessárias para que isso realmente aconteça?
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